ao entardecer, escavo palavras na tua boca de mar
salgadas, as sílabas colam-se à pele
como pequenos cristais que a língua percorre devagar
na tentativa de descodificar a complexa teia dos sentidos
falas-me de não sei o quê
que eu inverto numa retroversão demasiado livre
não sou poeta, meu amor,
mas, ainda assim, passam-me versos pelos dedos,
como estrelas estacionadas nas noites de verão da planície
lembras-te? lembras-te dos filhos que não fizemos com vergonha da lua?
lembras-te?
lembras-te da cor dos figos e das ameixas
quando não nos cabia nas mãos o apetite voraz
de lhes descobrir o caroço?
está bem. bem sei que os figos não têm caroço.
mas lambusam as mãos e a boca
o que aumenta o prazer de um beijo.
um beijo, meu anjo, meu doce entardecer nos meus lábios,
um beijo...
recolho-te agora no céu da minha boca
para aí brilhares com uma intensidade tão limpa
quanto a lua
quando a olho, só e abandonada,
do alto do monte.
eu sei, e sei que tu sabes ainda melhor do que eu:
o verdadeiro beijo é aquele que nunca se deu.